O futuro da discotecagem

Publicado originalmente em dezembro de 2011 @ Revista Zunido #2 [revista impressa]

Ser DJ é um lance cada vez mais subjetivo. Misturam-se num mesmo saco produtores, artistas, gênios, profissionais, semi-profissionais, gente que toca de tudo em festa de casamento, gente que faz o feijão com arroz, gente que faz por hobbie, gente que leva na zoeira, ou gente que faz apenas pra se autopromover – o caso mais notório é o do modelo Jesus Luz, o Milly Vanilly das pickups.

Temos diferentes vertentes, estilos, propostas e tribos apropriando-se de uma antiga nomenclatura que é, paradoxalmente, tão glamourizada quanto banalizada nos dias de hoje. Não proponho aqui, porém, uma discussão existencial sobre quem é o que ou gerar algum questionamento inesgotável do calibre de “afinal, o que é arte?”.

Estipula-se que no fim de 2012 o CD fique completamente obsoleto. Talvez demore mais um pouco para a sua morte, mas é fato que ele vai desaparecer, levando o mesmo fim da fita cassete. Consequentemente, isso faz com que os CDJs comecem a entrar em desuso. Embora também sejam bastante usados pelos DJs mais profissionais, muita gente já migrou há certo tempo pra novas tecnologias, como as controladoras MIDI.

Pra quem não sabe, essas controladoras são aparelhos similares a uma mesa de discotecagem, mas bem mais compacta, que se conectam nos computadores. A partir daí, podem ser programadas para controlar softwares de discotecagem. Controladoras específicas são construídas com características diferentes para se moldar às preferências de cada DJ. Alguns, por exemplo, preferem usar o programa Traktor combinado com controladoras desenhadas para ele, como a poderosa S4 da Native; outros podem optar por discotecar com o Ableton LIVE (que é originalmente um software de produção) e uma APC40, da Akai, que foi feita especificamente para o programa.

Ainda é bastante comum ter DJs que prefiram trabalhar com vinil, como os DJs de dubstep e os DJs de rap, por causa dos scratches e dos ruídos da agulha. Muitas vezes, o que mais impulsiona essa escolha é todo o romantismo atribuído hoje aos Long Plays, como no caso do James Murphy, do aposentado LCD Soundsystem. Como é cada vez mais difícil tocar com as pickups tradicionais – já que envolve achar vinis raríssimos, transportar caixas e mais caixas de discos e uma técnica muito mais apurada – há quem escolha simuladores como o Serato, em que se trabalha com dois discos “vazios”, que emulam a música desejada através do computador.

Os DJs podem a cada dia fazer coisas mais novas e criativas, como tocar com mesas de samples, que funcionam quase como instrumentos musicais, construir mashups ao vivo, mixar várias faixas de uma vez, trabalhar com várias opções de efeitos e agregar diferentes tipos de instrumentos, sintetizadores e baterias eletrônicas para a sua performance. Claramente, se apropriar de qualquer uma dessas “legalzices” pra discotecar envolve bastante conhecimento, prática e dinheiro. O que vai substituir os CDJs no futuro, então?  Ganha uma barra de Hershey’s quem respondeu touchscreen.

Através de uma combinação de softwares e aplicativos, já é possível discotecar com aparelhos eletrônicos que você nem imagina. Basicamente, qualquer controle que pode ser conectado a um computador pode ser utilizado como ferramenta para o DJ. Já tem gente tocando com controle de Nintendo Wii, iPhone e iPad, por exemplo. Está justamente no iPad a possível matéria prima dessa transformação; é leve, facilmente portátil, responde ao toque e pode funcionar perfeitamente no lugar das controladoras MIDI tradicionais. Precisa ainda de muitos aperfeiçoamentos para definitivamente entrar no jogo e garantir uma performance PRO, mas acreditem, o futuro vem daí.

Engenheiros já desenvolveram mesas de discotecagem touch. Grandes telas transparentes que rodam programas como o próprio Traktor, ou possuem um software específico, todo moldado para responder ao toque.

Investe-se nessa tecnologia porque ela é mais simples de usar, permitindo que os DJs possam se focar em mais recursos criativos e menos em “burocracia”. Gravar CDs, levar vários equipamentos caros, pesados e cheios de fios, se preocupar em acertar o pitch para mixar e equalizar as faixas exige muita concentração, fazendo com que seja mais trabalhoso ir atrás de outros recursos além destes. Tudo isso será simplificado, fazendo com que muito bigodudo choramingue porque as novas tecnologias difundem ainda mais as barreiras entre o profissional e o amador. Outros, porém, ficarão extremamente felizes pelo fato de poderem agregar cada vez mais novos recursos criativos para o seu trabalho.

Fazer uma mixagem já é uma atividade quase automática hoje em dia. Muito em breve, deve ficar ainda mais fácil de se executar, mas talvez por isso mesmo, ter um nome consolidado como profissional torne-se uma tarefa cada vez mais árdua. Será necessário atingir novos e mais complexos recursos criativos para se diferenciar e, provavelmente, quem não for um DJ produtor ou um artista criativo acabe com mais dificuldades para deslanchar uma carreira.

Por outro lado, espera-se que a “modinha” do “atacar de DJ” encerre seu ciclo, naturalmente afastando quem não tem tanto amor pela coisa. Sendo assim, quem não toca necessariamente música eletrônica também tende a conquistar cada vez mais o seu espaço e respeito como profissional.

O formato com que se discoteca e as ferramentas utilizadas evoluem e continuarão mudando cada vez mais em direção a uma simplificação. A essência para se tornar um bom DJ, entretanto, vai permanecer sempre a mesma: tocar música boa, ter identidade e ter alma.

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