Indie-marketing: o norte que falta ao Sul

Publicado originalmente em agosto/setembro de 2011 @ Freak! Mag # 3

Não deve ser novidade pra ninguém que o número de festivais dedicados à música independente cresceu incrivelmente nos últimos tempos no Brasil – um provável sintoma da confirmação do indie em escala global, que foi se sucedendo gradualmente ao desenrolar da ultima década. Graças a isso, bandas que nunca imaginaríamos pisando em nossas terras – ou, pelo menos, não tão cedo – começaram a se apresentar com cada vez mais frequência e o Festival Planeta Terra deixou de ser a única opção hipster-tupiniquim. São Paulo deixou de ser a única opção pra ver shows diferentes; o Rio apareceu com o genial coletivo Queremos, que banca show independente de forma independente. E não é que de repente outra região também entrou no mapa?

Vamos voltar um ano no tempo e procurar imaginar Ezra Koenig, do Vampire Weekend, ou os precoces garotos do Two Door Cinema Club tocando em uma praia do litoral gaúcho e, mais absurdamente, falando que era a primeira vez que pisavam no Brasil. Inconcebível, não? Mas como a gente bem sabe, rolou no Meca Festival há seis meses. E que tal LCD Soundsystem na casa do gaúcho? Um “WTF”, no mínimo! E quanto a bandas novíssimas e super modernas como Miami Horror, Darwin Deez, New Young Pony Club e Miike Snow tocando em Porto Alegre, naquela mesma casa que todo mundo amava há três anos e hoje adora falar mal? Vamos pensar então que o Metronomy e o Cut Copy (esses graças ao querido vulcão chileno), duas bandas prestigiadíssimas no exterior, que fizeram terceiros álbuns fantásticos nesse ano – enfim, tão com a bola toda – também vem pra Porto Alegre logo, logo. Tão me acompanhando no absurdo ou não?

A questão é justamente essa. O pessoal do Sul parece não se dar conta da importância disso no cenário todo, da revolução que o Beco e o Lúcio Ribeiro começaram por aqui e que já tá influenciando mais gente também, como a Void. Parece que o povo não ficou pasmo e muito menos empolgado com essa brusca mudança: o Meca não vendeu bem, o LCD não vendeu bem e o público dos shows do New Young Pony Club e do Miami Horror juntos talvez não lotassem o andar de cima do Beco. Em contraponto, o Miike Snow teve uma repercussão bem mais forte e o Darwin Deez teve, além de um número mais razoável, muito mais empolgação. O Television, banda das antigas, mas não das confirmadas, lotou. O que será que leva, então, as pessoas a irem ou não irem a um show por aqui?

O jornalista Gustavo Brigatti escreveu justamente sobre isso esses dias no Remix, da Zero Hora. Segundo ele, produzir shows no cenário alternativo de Porto Alegre é loteria, porque as reações do público quanto aos shows que tem ocorrido não seguem padrão nem lógica. Aparentemente, talvez seja, mas a questão é que o público não é uma massa disforme de comportamento aleatório; são pessoas com traços em comum que diferem e convergem em vários aspectos e precisam ser compreendidas. Eis a chave de tudo: compreensão. Sem entender o público, realmente, produzir em Porto Alegre é navegar sem bussola. É óbvio que por aqui a barra é mais pesada: temos poucos habitantes e cabecinha de província (tem gente que tem medo do hype), então trazer uma banda recém nascida na gringa e querer que bombe aqui parece uma missão impossível.

Sou estudante de Publicidade (não confiem) e pra esse semestre fiz um projeto de pesquisa justamente sobre isso: procurar entender o público de Porto Alegre, suas motivações, seus desejos e ideias perante o mercado indie. Tentar entender, afinal, o que esse público pensa dos shows e porque a procura por eles é normalmente tão baixa. Não vou dizer que cheguei a conclusões brilhantes. Percebi, depois de concluída, que deveria ter enfatizado em outros pontos, filtrado de outras maneiras, além de ter, evidentemente uma colaboração mais efetiva e massiva do perfil em questão. Os resultados encontrados, porém, não são de se jogar fora. Talvez o principal deles seja que as pessoas não se sentem estimuladas a ir a shows. Encontrei indícios de que situações desmotivacionais como preços, deslocamento e falta de companhia têm mais peso na balança se comparados a assistir uma banda pouco conhecida ou que representa baixo valor emocional. Para boa parte deles, anunciar New Young Pony Club por 50 reais não quer dizer muita coisa, pouco importando a oportunidade inovadora de poder assistir um grupo que há pouco tempo jamais pisaria na sua cidade. Na verdade, festa open bar pelo mesmo preço chama muito mais atenção – e não estou falando do pessoal que calça all-star e veste skinny jeans, mas só conhece três músicas do MGMT. Me refiro a gente que pesquisa música e baixa disco novo direto. Esse é o alvo, mas nem eles se sentem motivados o suficiente a ir.

Evidentemente, é uma questão de mentalidade, não tem solução mágica e ninguém vai descobrir uma formula genial pra reverter essa situação em curto prazo, mas lhes digo que talvez o buraco não seja tão embaixo quanto parece (lembrem-se que Miike Snow e Darwin Deez tiveram bons resultados, mas isso a gente ainda não sabe bem porque). Os produtores, porém, precisam ter em mente para quem e em quem investir. Repito, conhecer esse público, entende-lo. Como? Investindo em marketing, em pesquisas profundas, bem mais especificas, embasadas e melhor direcionadas que a que eu realizei. A partir daí, será possível saber o que essas pessoas desejam ou não e, mais importante, como estimula-las a comprar algo que ainda soa pouco sedutor. Falta propaganda, repetição e união; formadores de opinião se unindo em torno da mesma causa para, assim, solidificar uma cena. O primeiro passo já foi dado, falta agora comprar o mapa.

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